Um retrato no meio da parede da sala. Eu sabia que ele me olhava. Ele me fitava com aqueles olhos negros. Qualquer ser que cruzasse seu caminho saberia. Aqueles olhos me observavam. Aquele sorriso não demonstrava exatamente o que queria dizer. Mas ele definitivamente me observava. Sabia de minha rotina, sabia dos meus gostos. Aqueles olhos me liam. De cima a baixo. Me conheciam como nenhum outro ser poderia. Quer animado ou não. Essas paredes já me ouviram. Esses lençois já me tocaram. Essa cadeira ja sentiu o peso do meu corpo. Mas esses olhos. Ah, esses olhos. Eles sabiam. Sabiam de mim mais do que eu mesmo posso saber.
Me apaixonei. Me deixei levar pela profundidade desses olhos. Essas duas amoras mancharam meu interior. Me tocaram como nunca antes. Me apaixonei. E agora temo, apesar de confiante, que o suco evapore e essa mancha fique. Fique para me lembrar que eu, também, mereço ser amado. Me apaixonei.
Os olhos do quadro agora apontam a direção. Direção que devo tomar. Mas é tão escura... São locais desconhecidos, são áreas vistas somente pela minha imaginação. O abismo no qual me jogarei é repleto de névoas. De incertezas. De inseguranças. Mas não terei medo. Os olhos que me apontam a direção estão agora a sorrir.
Vai. Mas volta.
Há 11 anos
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