É no mínimo interessante o modo como os trópicos alteram a interação entre as pessoas, né? E pego como exemplo o nosso país. Acho que todos nós já vivenciamos algo assim. Eu pelo menos algumas vezes. "Não fale com estranhos!" - dizia a minha avó. Mas você já reparou como falamos com os outros como se fosse, em algums casos, quase amigos de infância? Já reparou também que difcilmente tratamos um estranho como um estranho? Pare e pense: Qual foi a última vez que você chamou algum estranho na rua de "Senhor" ou "Senhora"? (Claro, tirando os casos em que esses estranhos são pessoas idosas) Poucas vezes, né? Bem, toda essa intimidade deve ter alguma explicação. Todo mundo é "amigo", "parceiro", "choque", "brow" mesmo não sendo.
Isso me veio à cabeça ontem de noite, saindo da estação do metrô de Botafogo. Ao sair do vagão, me pára uma mulher cheia de sacolas das Sendas e me pede para ajudar a levá-las para a parte de cima da estação. Até aí tudo bem, uma boa ação de um bom cidadão não faz mal a ninguém. Então ela começou a me contar o porquê de tantas sacolas. Disse - "Eu não devia ter comprado tantas coisas! As vezes eu compro coisas demais e acabam estragando lá em casa." - e bla bla bla. Contou grande parte do dia dela pra mim. Isso andando a passos de formiga; já nem sei se ela estava com o pé machucado ou se era pra me atrasar mais ainda e poder contar a sua jornada homérica através das últimas, talvez, 18 horas. Ao chegar no andar de cima, tento eu devolver as sacolas e ela ainda falando sobre as compras e também sobre o filho dela que faz faculdade de "não sei o que" na UFRJ. E ainda fiquei mais uns 5 minutos contando um pouco da minha vida pra ela, agora era a minha vez. Até que ela foi embora.
Acho que dificilmente veremos algo assim fora do mundo latino. Isso tudo me parece ser uma mistura de inocência e carência. Mas tudo no bom sentido. Inocência por achar que o outro está realmente interessado na sua vida. Carência, por essa tal necessidade de simplesmente falar, não importanto o quê nem pra quem.
E não estou criticando não, pelo contrário, amo muito tudo isso!
Vai. Mas volta.
Há 11 anos
Um comentário:
Tens razão... Afinal, se você mesmo reprovasse a idéia de as pessoas abrirem suas vidas a estranhos, seria bastante contraditório ao expor seus (preciosos e pessoais) pwnsamentos na "dangerosíssima" internet. E adorei a idéia dos links! :)
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